Liga da Justiça: Deu para Salvar o Mundo?


Dizer que a trajetória do universo compartilhado da DC Comics no cinema está conturbada não faz jus à gravidade dos fatos. Até aqui, foram quatro filmes. Destes, dois dividiram opiniões, um foi uma bomba absoluta e apenas um pode ser considerado sucesso absoluto. O Homem de Aço (2013) rompeu com tudo que havia sido feito até então (algo que achei sábio) em termos de identidade visual e trouxe novo folêgo ao personagem, mas se encrencou ao bater de frente com a visão de muitos fãs para o maior de todos os heróis.

Batman v. Superman (2016) tinha boas intenções, mas falhou ao não aprofundar determinadas explicações no roteiro, gerando inúmeras piadas entre os críticos (“os dois pararam de brigar porque a mãe deles tem o mesmo nome”), além de trazer a versão mais odiada de Lex Luthor de todos os tempos.

Também foi triste ver que Esquadrão Suicida tinha potencial ao mostrar o lado B deste universo, mas além das remontagens e refilmagens às pressas, conseguiram falhar no mais simples e transformaram anti-heróis que deveriam desconfiar (e até querer matar, se preciso) uns aos outros numa “família”. E nem vou falar de Jared Leto como Coringa, embora eu ache que, pelo excelente ator que é, deveria ter uma chance para se redimir.

Mas em 2017, uma luz veio, enfim, na porta da Warner. Sob a direção acertada de Patty Jenkins, Mulher-Maravilha foi o primeiro grande acerto em muito tempo da DC nos cinemas. Execrada bem antes de aparecer em BvS (e roubar o filme), Gal Gadot encantou e inspirou os fãs a darem um voto de confiança para a próxima empreitada: o filme da Liga, cujo projeto em si era mais antigo que o universo compartilhado. Vide o projeto não realizado a ser dirigido por George Miller.

Naquela época, e mesmo hoje, o estúdio ainda não via o potencial de seus personagens clássicos na tela. Somente em 2011, quando o universo Marvel começava a galgar seus passos nas bilheterias, a Warner começou a correr atrás, se preparando para fechar a trilogia de Chistopher Nolan e escolhendo um rosto para lançar como novo Superman. Só não o fez no ano seguinte para não bater de frente com o primeiro filme dos Vingadores.

O que nos leva ao filme da Liga. Não houve tempos de paz nessa produção. Pouco após a finalização da fotografia principal, o diretor Zack Snyder abandona a produção após a morte da filha. Joss Whedon, dispensado da Marvel, assumiu as refilmagens. Outro problema, este inusitado, estava na cara, ou melhor, no beiço do Superman. Envolto com as filmagens do novo Missão: Impossível, foi proibido pela Paramount de remover o bigode que ostenta no papel, apesar das tentativas da Warner de fazer um acordo. Sem sucesso, tiveram de remover digitalmente. E em alguns momentos, é impossível não perceber o remendo em CGI. Mas e o filme? Vamos lá:

Com a morte do Superman, o mundo vive uma espiral de violência e perda de fé. E Bruce Wayne (Ben Affleck), estava certo. Há uma ameaça vindo. Steppenwolf (o nome em português é risível e não vou reproduzir aqui), que já fora expulso da Terra, está voltando, em busca de três fontes de poder que, unidas, representam o fim de nosso planeta.

Por isso, ao lado de Diana Prince, ele começa a recrutar  meta-humanos descobertos em arquivos secretos de Lex Luthor, para montar um time capaz de deter a ameaça: Artur Curry (Jason Momoa), filho de um humano com uma atlante, capaz de viver na superfície e nos oceanos; Barry Allen (Ezra Miller), jovem com super velocidade que combate crimes secretamente. E Victor Stone (Ray Fisher), que teve seu corpo reconstruído ciberneticamente e é capaz de se ligar à qualquer tecnologia.

Com apenas duas horas de duração, o filme parece curto demais. Se fala muito que não foi épico o bastante. Acredito que, para uma primeira aventura, foi melhor do que se esperava. E acho importante salientar algumas coisas. Muitas pessoas questionam que se deveria fazer um filme solo de cada personagem antes de um filme de equipe. As comparações com o universo Marvel são inevitáveis. Mas sejamos francos: o padrão Marvel é excelente, mas não deve ser uma regra a ser seguida. Engessar um padrão é algo muito errado.

Cada universo deve seguir seu caminho, com acertos e erros. E não acredito que filmes solo são sempre necessários. Muitos filmes envolvendo times e equipes, inclusive fora do gênero fantasia (filmes de guerra são um bom exemplo), conseguem mostrar coesão sem aventuras solo. E mesmo em Vingadores, não tivemos filmes solo de Gavião Arqueiro e Viúva Negra (uma injustiça que a Marvel já deveria ter corrigido, pelo potencial da personagem).

Vou citar um outro exemplo: o já clássico desenho animado da Liga da Justiça, lançado em 2001, começou com uma aventura dividida em três partes. Nestes três episódios (que somados, tem um tempo de 1h30), as origens de Batman e Superman não são abordadas (afinal elas já são mais que conhecidas) e a Mulher Maravilha é rapidamente apresentada em Themiscyra. Flash, Lanterna Verde e Mulher Gavião sequer tem origens explicadas, são simplesmente jogados na trama. Apenas o Caçador de Marte ganha um pouco mais de introdução.

Então, a questão é simplesmente saber dar espaço para cada personagem. E esta primeira incursão da Liga nos cinemas não teve este problema. Talvez o grande problema seja a tal ameaça. A escolha foi boa, ao invés do óbvio Darkseid (e assim evitar as comparações com o vindouro Thanos). Mas a decisão de criar um personagem em CGI me pareceu errônea, visto que Steppenwolf sempre foi retratado como um humanoide em escala de um humano normal. Desperdiçaram Ciaran Hinds quando poderiam ter pego alguém mais jovem para contracenar diretamente com os atores e assim, dar mais realismo aos combates.

Também fica evidente que deram uma suavizada no roteiro. Não ficou ruim, mas o humor forçado para dar piadas à Ezra Miller ficou óbvio demais. Os melhores momentos de humor são quando os outros personagens tem momentos involuntários de humor.

Em geral, o elenco está bom. Gal Gadot manteve sua regularidade das aventuras anteriores e permanece como a unanimidade da franquia. Embora Ben Affleck pareça visivelmente no piloto automático e aborrecido em várias ocasiões, ainda consegue entregar um bom Batman/Bruce Wayne em vários momentos. Jason Momoa tem aquele sério problema de ter o personagem adaptado para ele (quando deveria ser o oposto). Porém, seu jeitão rude serviu para Aquaman. Ezra Miller tem momentos forçados, sim. Mas no geral, cumpre seu papel como Flash. Apenas Ray Fisher me pareceu ter menos espaço para desenvolver seu Cyborg, mas teve bons momentos.

E o Superman? À exceção do beiço digital, não há o que falar mal de Henry Cavill. Embora eu questione algumas circunstâncias do retorno do personagem, ele entrega um Superman que enfim, agrada tanto os fãs saudosos de Christopher Reeve quantos os fãs que conseguiu nos filmes novos. Inspira a luz e esperança que dizia simbolizar o S em seu peito.

Mas a história ainda não teve um final feliz. O filme estreou em novembro passado. Precisa no mínimo atingir 800 milhões para se pagar e fazer lucro. E somente agora passou dos 600 milhões.  Salvar o mundo unidos, eles conseguiram. Salvar a si mesmos nas bilheterias, eu espero que sim, também.

 

 

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Sérgio “Mentorbreak” Fiore é revisor do Nós Nerds, porém não deixou sua paixão por blog e não conseguiu ficar longe das postagens.